O cisne sagrado
O cisne bravo foi salvo graças ao esforço e à persistência de um único homem. Trata-se de Yrjö Kokko, um médico veterinário residente em Enontekiö, na Lapónia, cujo grande sonho era fotografar um ninho de cisne bravo e documentar o seu modo de vida, em geral. Conseguiu o seu objectivo alguns anos depois de efectuar várias tentativas e escreveu o livro Laulujoutsen (O Cisne Bravo, 1950), em que descreve as suas experiências. O livro veio chamar a atenção dos finlandeses para o cisne e gerou uma opinião favorável à protecção da espécie. A população de cisnes bravos começou a aumentar, o que permitiu a Yrjö Kokko intitular o seu segundo livro, sobre o mesmo tema: Ne tulevat takaisin (Eles Estão de Volta, 1954). O número de cisnes bravos cresceu significativamente ainda durante a vida de Yrjö Kokko (morreu em 1977) e, actualmente, a espécie encontra-se espalhada por toda a Finlândia. Hoje em dia, há ninhos de cisnes até na costa sul, onde o cisne bravo se encontra com o cisne (cygnus olor) que foi inicialmente introduzido nos jardins e nos parques, encontrando-se actualmente em expansão para leste. Desde que o cisne se tornou uma espécie protegida, o número de cisnes bravos nidificadores aumentou cem vezes em apenas 40 anos. Existem já na Finlândia cerca de 2000 pares nidificadores e o número continua a aumentar. Já não são precisos vários anos para se conseguir ver um cisne nidificador; hoje em dia, alguns ninhos estão até muito próximo das habitações.
O cisne bravo constrói o ninho pela primeira vez aos 3 ou 4 anos de idade. No entanto, escolhe o par aos 2 anos e, geralmente, fixa-se na área onde, futuramente, há-de construir o ninho. Os cisnes chegam à Finlândia logo em Março ou Abril, com os lagos ainda gelados. Juntam-se em lagos não gelados e começam a nidificar logo que o gelo derrete. Constroem grandes ninhos, de preferência em pequenas ilhotas completamente rodeadas de água. Os pequenos cisnes só ficam completamente cobertos de penas cerca de 130 a 140 dias depois das mães porem os ovos. Na Lapónia morrem muitos cisnes ainda pequeninos porque os lagos voltam a gelar quando eles ainda não conseguem voar. Nas regiões do sul, os cisnes têm melhores condições de sobrevivência.
Os cisnes empreendem a sua viagem migratória de Outono só depois de os lagos gelarem. Passam o Inverno na região do Mar Báltico e, caso este venha a gelar, mudam-se para o Mar do Norte.
O uso do cisne como símbolo tem já tradições bastante antigas. O cisne aparece como figura mítica nas pinturas rupestres do Lago Onega, que têm milhares de anos. O cisne do rio Tuonela, ou do rio da morte, de acordo com a tradição Finlandesa, e o canto do cisne foram sempre temas favoritos nas artes, particularmente durante o movimento do Romantismo. Além disso, a silhueta de um cisne branco voando sobre um céu azul faz lembrar o inverso da bandeira da Finlândia, uma cruz azul sobre um fundo branco. O cisne é, hoje em dia, um dos animais mais usados em publicidade. Nos países nórdicos, coloca-se uma etiqueta com um cisne em determinados produtos de consumo, para indicar que se trata de produtos respeitadores do ambiente.
O rei das florestas
Apesar do seu estatuto de animal sagrado, o urso também é alvo da caça pelo homem. Outrora, matar um urso era um feito que dava prestígio a um homem. O espírito do urso morto era depois apaziguado com rituais complexos e exaustivos, que culminavam com uma procissão cerimoniosa em que a cabeça do urso era devolvida à floresta. Considerava-se perigoso pronunciar a palavra urso para designar o urso e, em sua substituição, proliferaram uma série de eufemismos, alguns dos quais ainda subsistem. Até mesmo a palavra finlandesa que designa floresta chegou a substituir a palavra urso; outra das alcunhas que se aplicava ao animal era mesikämmen que significa pata-de-mel.
Inicialmente os ursos eram caçados com lanças, sendo normalmente despertados do seu estado de hibernação. À medida que as armas de fogo se foram tornando mais comuns, tornou-se cada vez mais fácil matar um urso, apesar da caça ao urso permanecer um desporto perigoso. O sucesso da caça fez com que os ursos se fossem extinguindo progressivamente no sul da Finlândia, ainda no século XIX. Em meados do século XX, haviam já sido afugentados para as grandes florestas das regiões fronteiriças do norte e do leste.
Apesar disso, houve sempre migração de ursos, que atravessavam a fronteira para a Finlândia, vindos das terras da União Soviética. Quando o urso se tornou uma espécie protegida, a sua população começou a aumentar, o que fez com que os ursos voltassem a expandir-se de novo em direcção a oeste. Actualmente, existem cerca de 1000 ursos espalhados por todo o território da Finlândia, exceptuando apenas o arquipélago a sudoeste e o Arquipélago de Åland.
Apesar de o urso ser visto como um habitante de regiões selvagens solitárias, ele pode adaptar-se a áreas habitadas pelo homem. Sabe-se que os ursos hibernaram já em locais muito próximos de habitações. Apesar de existirem em grande número, é muito raro deixarem-se avistar, pois evitam, muito cuidadosamente, as pessoas que andam pelas florestas. Ainda assim, é fácil encontrar «pistas» de ursos, como pegadas, árvores com marcas de garras ou formigueiros destruídos.
Actualmente é permitida a caça ao urso, mas a uma escala limitada. As licenças de caça destinam-se, normalmente a caçar ursos que apresentem ferimentos ou comportamentos perigosos. Considera-se importante eliminar ursos que matam gado ou que visitam continuamente os quintais das pessoas, pois podem ser perigosos.
Um urso ferido é sempre perigoso. Pode atacar um ser humano para defender as suas crias. Se alguém se cruzar com uma cria de urso na floresta, deve retomar o caminho de volta, calmamente. O perigo é maior se alguém surgir no caminho entre a mãe e as crias. Foi o que aconteceu provavelmente a um homem que morreu em 1998, ao ser atacado por um urso. Muitos dos ferimentos causados pelos ursos ocorrem durante as caçadas.
A utilidade do urso como símbolo pode estar, de certo modo, limitada pelo facto de a ex-União Soviética (actual Rússia) ser mundialmente representada por um urso enorme cujas acções têm de ser previstas pelos seus vizinhos mais pequenos. Apesar de tudo, a expressão «viver ao lado do urso» não é, geralmente, usada na Finlândia e os cartunistas finlandeses raramente recorrem ao urso para representar a Rússia. O urso não deixa, no entanto, de ser uma figura incómoda para os finlandeses, mas por outra razão: o cobrador de impostos é normalmente representado por um urso com um boné de pala e um enorme saco de dinheiro...
Contraplacado, papel e sauna
No entanto, os primeiros povos finlandeses mantinham uma relação diária e pragmática com a bétula. Nesses tempos recuados, a árvore sagrada que protegia a casa e mantinha o viajante a salvo de perigos era, na verdade, a sorveira-dos-passarinhos. Aquando da votação popular para eleger a árvore nacional, muitos apostaram que iria ganhar a sorveira, mas foi a bétula que venceu, com uma clara vitória. De facto, mesmo o pinheiro, o zimbro e a bétula vermelha também se classificaram acima da sorveira.
No decorrer do século XIX, a bétula foi também romantizada. No conto de fadas de Zacharias Topelius intitulado Koivu ja tähti («A bétula e a estrela»), duas crianças que andavam perdidas, em busca da sua casa, conseguiram encontrá-la ao reconhecerem a bétula plantada no quintal. Hoje em dia, a figura da menina finlandesa envergando o traje tradicional, encostada a uma bétula é já uma imagem mais vulgar do que propriamente um emblema nacional; devem existir centenas de postais com esta ilustração! Muitos foram já os jovens finlandeses que, por gracejo, “desposaram” as suas noivas com um anel feito de casca de bétula, antes de lhes oferecerem um anel de noivado verdadeiro.
A bétula merece, sem dúvida, o seu estatuto de árvore nacional da Finlândia. Predomina num quinto das florestas finlandesas, mas encontra-se também um pouco por toda a parte. No tempo dos fogões a lenha, a sua madeira era usada como combustível e uma décima parte das casas finlandesas ainda hoje são aquecidas com cepos dessa árvore; já para não falar da maioria das cabanas de sauna de Verão. Durante décadas, a indústria de contraplacado assentou inteiramente na bétula. Contudo, devido à quebra na procura do contraplacado, a bétula foi desprezada e considerada “madeira de segunda” durante algum tempo, até que alguém percebeu que era uma óptima fonte para uma excelente fibra de papel. O açúcar de bétula, também conhecido como xilitol, é cada vez mais usado como adoçante (pelo menos, na Finlândia), dado que se provou ser benéfico para os dentes, ao contrário de outros tipos de açúcar. Graças à revalorização da bétula, estão sendo plantadas novas florestas desta árvore.
Na Finlândia, existem duas espécies de bétula: a betula verrucosa (rauduskoivu), que cresce em solo duro, e a bétula pubescens (hieskoivu), que se desenvolve em terrenos pantanosos ou propensos a inundações. As flores da bétula nascem em Maio, antes de crescerem as folhas. As flores tornam-se amarelas e caem em Setembro, no norte da Finlândia, e em Outubro, no sul. A bétula possui um tronco direito, que se pode abater quando a árvore atinge os 50 anos. Começa a deteriorar-se gradualmente após cerca de uma centena de anos, mas, em condições favoráveis, pode atingir mais de 300 anos. A bétula mais alta da Finlândia mede 32 metros.
A bétula contém diversas substâncias que a tornam desagradável ao paladar, o que não a impede, no entanto, de constituir a base alimentar da lebre e do alce durante o Inverno. Centenas de espécies alimentam-se das suas folhas durante o período estival; só as borboletas, são cerca de 100 tipos diferentes as que comem folhas de bétula, quando se encontram ainda na fase larvar.
Um inebriante aroma floral
O lírio-dos-vales encontra-se em quase todo o território finlandês, apesar de ser hoje muito raro na região da Lapónia. No sul do país, é uma flor comum nas florestas secas ou de folhas caducas e nas extremidades dos bosques. O lírio-dos-vales aparece em Junho. As flores brancas têm um aroma delicado e inebriante, sendo utilizadas na indústria dos perfumes.
O lírio-dos-vales tem uma raiz forte e uma haste com duas folhas. Pode dar flores no Inverno, embora nem todas as hastas que saem da raiz venham a dar flor; não florescem tão facilmente como as túlipas ou os crocus.
As bagas vermelhas amadurecem no Outono. O acentuado contraste entre o azul da semente e o vermelho do fruto poderia constituir um sinal de alerta para a sua natureza venenosa. Os finlandeses sabem-no muito bem, tanto que a planta nunca provocou nenhum caso grave de envenenamento. Além disso, as bagas silvestres são absolutamente inofensivas para os pássaros. Parece até que muitos pássaros dos bosques, incluindo o tordo, espalham as sementes para novos locais.
A perca
A perca é o peixe mais pescado e, porventura, o preferido dos pescadores. Todos os anos são pescados na Finlândia cerca de 10 milhões de quilos de perca, sendo uma boa parte desta pescaria da responsabilidade de pessoas que praticam a pesca como passatempo. Se considerarmos apenas a pesca em águas geladas, cerca de 2 milhões de quilos de perca são depositados sobre o gelo do Inverno. A carne da perca é branca e saborosa. As únicas características que lhe são desvantajosas são o seu tamanho relativamente pequeno e a baixa taxa de crescimento. A maior parte das percas que são pescadas pesam menos de 100 gramas. Só atingem 1 kg de peso quando têm cerca de 20 anos de idade. Apesar de tudo, a taxa de crescimento é muito variável e depende do tipo de água em que a perca vive. A taxa de maior crescimento regista-se nos grandes lagos e no mar. A maior perca apanhada na Finlândia pesava mais de 3,6 kg, mas as percas com mais de 2 kg são extremamente raras de encontrar.
Rocha sólida
O granito e outras rochas intrusivas, contendo uma grande percentagem de sílica, constituem metade de toda a camada rochosa da Finlândia. O granito formou-se nas profundidades da camada rochosa, nas raízes das cadeias rugosas, onde a cristalização do magma se deu de forma lenta. Os principais minerais que compõem o granito são o feldspato, a plagioclase, o quartzo e a mica. Normalmente tem cristais bastante grosseiros, o que permite distinguir os diferentes minerais. A quantidade desses minerais é variável, o que faz com que a cor do granito seja também variável — pode ir do cinzento-escuro ao cinzento-claro e ao vermelho. O granito é um material de construção sólido e versátil, sendo extraído em várias regiões da Finlândia. O uso mais original que se dá ao granito — e o mais típico — são os cilindros laminadores das máquinas de corte de papel. Esses cilindros de granito, que pesam dezenas de toneladas, são cortados com uma precisão de fracções de milímetro.
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